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A deformação do sofrimento a partir do ato analítico

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    mayarasouzapsi
  • 4 de jun. de 2023
  • 9 min de leitura

A partir de uma investigação teórica, acerca dos conceitos encontrados na obra de Jacques Lacan, ato analítico e anamorfose, pretende-se buscar uma correlação entre ambos a fim de compreender os efeitos do primeiro quanto às deformações do sofrimento.

Pierre-Gilles Guéguen (2003) diz sobre a psicanálise se confirmar a posteriori, com o que de resultado trará o próprio analisante. Lacan, segundo Guéguen, lembra sobre o que define o analista é seu ato.

Guégen (2003, p.17) considera então, que “não nos tornamos psicanalistas, verificamos se fomos”. Sendo assim, desde uma inquietação quanto à formação de um analista, que passa continuamente pelo retorno à teoria, até a experiência clínica de repetições e transformações, parece importante falar do momento de um ato analítico que resulta em um efeito inesperado, momento em que podemos verificar se fomos analistas.

Segundo Sonia Vicente (2004), sobre o ato analítico diz, “a surpresa é o signo da experiência do inconsciente, signo que nos afeta”.

O caso Katharina, descrito por Freud (1893-1895) em “Estudos sobre a histeria”, aponta para este elemento surpresa, desencadeador de uma série de elaborações. Como Freud (p.162) nesse texto relata, uma transformação: “parecia alguém que tivesse passado por uma transformação. O rosto amuado e infeliz ficara animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante”.

O caso se trata de uma moça que aborda Freud em suas férias de verão, dizendo-lhe estar ruim dos nervos, sofrendo de uma falta de ar que a acomete de repente, olhos pressionados, cabeça pesada, zumbido e tontura. Ao lhe questionar o motivo, Katharina não soube responder à Freud e este então, na ocasião que não lhe proporcionava a possibilidade de aplicar a hipnose e na tentativa de ter sucesso com uma simples conversa, arrisca um palpite. Esse palpite parece ser uma surpresa para Katharina, resultando na transformação acima descrita.

Outro caso belíssimo, encontra-se no documentário “um encontro com Lacan” (2011) onde uma das entrevistadas, Suzanne Hommel, conta de sua experiência ao se analisar com Lacan. Acometida pelo sofrimento de sua vivência durante a guerra e pós-guerra na Alemanha, conta à Lacan um sonho em que acordava às 5h da manhã todas as manhãs, e acrescenta dizendo: “Era às 5h que a Gestapo vinha procurar os judeus em suas casas”. Hommel conta que neste momento, Lacan se levanta, vai até ela e faz um carinho em seu rosto. Neste ato de surpresa, ela entende como “geste à peau” e conta que “essa surpresa não diminui a dor, mas fez outra coisa”. Há uma deformação nesse sofrimento a partir desse ato.

Freud (1917/1980), em “os caminhos da formação dos sintomas”, diz sobre os sintomas psíquicos serem atos prejudiciais, inúteis, dos quais o sujeito se queixa de serem causadores de desprazer ou sofrimento, sendo indesejados, acabam por causar um dano a partir do gasto mental que acomete ao lutar contra eles. Nesse dispêndio, a energia que a pessoa teria para realizar atividades importantes da vida, fica suspensa, resultando em um empobrecimento de energia mental. Freud compreende o sintoma como uma questão econômica. Resultado de um conflito, surgindo em virtude de um novo método para satisfazer a libido.

Foi Freud que ao ouvir os sintomas histéricos, neuróticos, entendeu que ali poderia ser encontrado sentido e mais ainda, fonte de satisfação. Satisfação essa que veremos se tratar de sofrimento. Para Maria das Graças Leite Villela Dias (2006), Freud entende que a libido encontra uma saída até uma satisfação real, pela via inconsciente e de antigas fixações. “Embora seja uma satisfação extremamente restrita e que mal se reconhece como tal”. (Freud 1917/1980 p.421-422 apud Dias, 2006).

Assim, "de algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra transformada em uma sensação de sofrimento [...]" (Freud 1917/1980 p. 427 apud Dias, 2006)

Será desse sofrimento que o psicanalista estará para ouvir de quem os procura. Para Luiz Claudio Figueiredo (2013), se faz importante na psicanálise a diversidades de estratégias de escuta analítica, uma escuta polifônica, assim como, o reconhecimento da validade e da insuficiência da escuta. Essa compreensão parece apontar para as deformações também de um analista no caso a caso.

Figueiredo (2013) vai dizer que mais que uma terapia pela fala, a análise se daria no plano de terapia pela escuta, a partir de uma posição ética da qual implique uma disposição de mente juntamente com a técnica. Fazendo do analista ouvinte a partir da escuta com seu inconsciente em contato com o inconsciente do analisante, a partir da técnica da escuta flutuante. Assim, mais do que estar atento ao acompanhamento das trilhas associativas, é preciso estar atento as aparentes irrelevâncias, raras e ausentes.

Freud (1911-1913) inicia seu texto, “recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, apresentando regras técnicas, porém alertando para o leitor, que estas ele pôde alcançar a partir de sua própria experiência e assevera que sua técnica é a única apropriada a sua individualidade e diz: “Não me arrisco a negar que um médico constituído de modo inteiramente diferente possa ver-se levado a adotar atitude diferente em relação a seus pacientes e à tarefa que se lhe apresenta”. (p.125)

Tendo em vista, que um ato analítico, escapa de uma regra, pois é um ato, parece importante passar rapidamente pelas questões de formação de um analista. Tema que tem sido discutido recorrentemente nos locais de transmissão da psicanálise.

Um recorte do texto de Lacan (1901 - 1981) “Situação da psicanálise em 1956”, em Escritos, parece bastante atual quando pensamos, “como se pode ser psicanalista?” Lacan responde sua pergunta postulada da seguinte forma:

A explicação deve ser buscada mais na situação da psicanálise que na dos psicanalistas. Pois, se pudemos definir ironicamente a psicanálise como o tratamento que se espera de um psicanalista, é justamente a primeira, no entanto, que decide sobre a qualidade do segundo. (Lacan, 1901 – 1981, p.462)

Adentramos no campo do inconsciente desde a formação como psicanalistas. As discussões são infinitas quanto ao que é se tornar um analista e assim interessa que continue a ser para que se mantenha viva a possibilidade de continuar a se dizer sobre.

Um conceito do qual Lacan (1964) abordou em seu seminário “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, é a anamorfose. Lacan neste capítulo, faz um apontamento à obra de Maurice Merleau-Ponty, “o visível e o invisível”, dizendo que ao remeter-se ao texto, é possível perceber um retorno às fontes de intuição relativas ao visível e ao invisível, a fim de discernir o surgimento da visão em si mesma.

Trata-se para ele de restaurar – pois, nos diz ele, só pode se tratar de uma reconstrução ou de uma restauração, e não de um caminho percorrido no sentido contrário – de reconstituir a via pela qual pôde surgir, não do corpo, mas de algo que ele chama a carne do mundo, o ponto original da visão. (Lacan, 1964 p.84)

Lacan, ainda no mesmo texto, aponta a partir desse trecho a função de “voyura”, a partir de uma extração do que se fazia parte, surgindo como um olho, “ver-se vendo-se”. Lacan retoma a anamorfose, a partir de sua estrutura simples, não cilíndrica, onde imagina uma imagem sendo transportada para uma outra superfície obliqua, com o auxílio de uma série de fios. Eis a deformação que apareceria nessa nova perspectiva.

Lacan utiliza do quadro, “Os embaixadores”, de Hans Holbein, pintura onde podemos ver “vanitas”, representação de vaidade e futilidade vã e diante dessas representações de ostentação se vê, um borrão, um objeto voador, que ao olhar por outro ângulo, enxerga-se uma caveira. E assim reitera, “esse quadro não é nada mais do que é todo quadro, uma armadilha de olhar” (p.91). Aqui, Lacan está nos dizendo que há algo que sempre escapa na ótica, que a “anamorfose nos mostra que não se trata, na pintura, de uma reprodução realista das coisas do espaço” (p.94) e voltando ao quadro de Holbein, nos diz, que o objeto de primeiro plano, a caveira, nos remete ao nosso próprio nada.

Para Quinet (2009), um quadro representa o princípio de perspectiva, uma janela por onde se vê, o quadro seria então, o recorte da paisagem com a sua moldura. Silvia Amigo (2005), em seu livro “Clinica dos fracassos da fantasia”, também utiliza de um quadro, mas aqui, para exemplificar a construção da fantasia. Guiada, como diz a autora, pelo seminário de Lacan “Sobre a lógica da fantasia”, utiliza do quadro de René Magritte, “A condição humana”, para dizer das instancias Real, Simbólico e Imaginário.

Retomando a ideia de perspectiva a partir do conceito de anamorfose, Quinet relaciona que esta se dá a partir do campo da visão, na medida das representações, do simbólico e que as deformações, já que estamos falando sobre anamorfose, estariam apontando para o campo pulsional, se inscrevendo no quadro, o que está fora do simbólico, “a falta e o furo”, o objeto que escapa à representação. E comenta que é neste quadro estampado na capa do seminário 11, “Os embaixadores”, que podemos ver de frente o mundo das representações, mas ao mudar de posição, muda-se o ponto de vista.

A hipótese aqui levantada seria de que o elemento surpresa do ato analítico, o que está invisível, a partir da escuta do analista, irrompa se extraindo da cena, se projete numa outra angulação causando uma mudança do ponto de vista do analisante, e então, uma deformação do seu sofrimento.

No livro “pertinências da psicanalise aplicada”, Pierre-Gilles Gueguen e Serge Cottet, passam rapidamente pelo conceito de anamorfose em seus textos, “quatro pontuações sobre a Psicanalise aplicada” e “O psicanalista aplicado”, respectivamente, e abordam a prática do psicanalista, seja na confirmação a partir do ato analítico à posteriori pelo analisante, ou na não existência de uma condição ideal para as aplicabilidades da psicanálise e que isso, não se trata de uma degradação da obra, mas sim, resulta, numa visão do caso a caso.

No texto “A anamorfose”, do seminário 11, “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, Lacan (1964) discorre quanto à distorção de uma imagem a partir de sua projeção obliqua em outra superfície, não mudar sua origem e sua real imagem. Mas ainda, ao analisar o quadro “Os Embaixadores”, de Hans Holbein. Lacan Utiliza do conceito de Anamorfose para explorar o que parece ser uma ambivalência dentre as possibilidades de interpretação da imagem.

Se pensarmos que um ato analítico como fez Lacan, no exemplo citado quanto à deformação do sentido da palavra “Gestapo” para “Geste à Peau”, e o afeto que causa em sua analisante a partir de um gesto, transportando o sofrimento para um acalento. Isso não muda o fato de que houve uma imagem aterrorizante e sofrida, porém esta pode ser vista de outra forma.

Analisantes e analistas traçam caminhos singulares e não distantes de sua própria trajetória subjetiva, sendo assim desde seus lugares a forma de compreensão do que é dito, visto e feito em ato pode sofrer distorções e causar efeito dos quais não se sabe de antemão. Essas distorções talvez indiquem que só é possível de ser um analista, na medida em que o analisante possa apontar essa existência. Esse apontamento se daria a partir do efeito a posteriori do ato analítico, do qual a partir da deformação do sofrimento que o analisante se coloca a falar, pode então acontecer.

Levantamos dessa forma, a hipótese de que o elemento surpresa do ato analítico, invisível de antemão, a partir da escuta do analista possa irromper, se extraindo da cena, e então se projetando numa outra angulação, causando uma mudança do ponto de vista do analisante, e assim, uma deformação do seu sofrimento.

Partindo da ideia de que aquele que transmite aprende com seus ensinamentos e então o psicanalista, na posição de mestre ou de analista, no fim das contas é efeito de sua transmissão ou de sua própria experiência. Se algo vai à direção de transmitir o que é próprio de sua natureza e reproduzindo o que já se tem de algum conhecimento prévio, a teoria não supera a experiência, e ainda assim, não se pode, por este fato, desqualificar aquela, e o que vemos do percurso da psicanálise é o que temos notícias das experiências humanas que revelam o inconsciente que nos habita.

Serge Cottet (2003) em seu texto “o analista aplicado” cita Gastan Bachelard ao dizer que “A riqueza de um conceito científico se mede por sua potência de deformação” (p.27), portanto, não se pode confundir, como diz Cottet, a anamorfose dos conceitos com a degradação de seus princípios. Pelo contrário, esta proposição por si só já justifica a importância da retomada desse conceito que parece guiar muito do que se entende quanto a psicanálise.

Ao utilizarmos dessa ideia de Cottet, podemos pensar a deformação do sofrimento, que não se trata de modificação como se não mais existisse o evento que trazia sofrimento, mas sim de uma deformação ainda que sua origem permaneça a mesma. Assim aponta-se para essa não existência de uma escuta única e de então a impossibilidade de um efeito previsto de antemão pelo analista. Possibilitando então, marcar para a praxe psicanalítica e a função do analista a partir de seu ato, como meios de deformação do sofrimento psíquico dos quais um analista se propõe a ouvir.


Palavras chaves: Anamorfose, Ato analítico, Sofrimento e sintoma, Formação do analista, Simbólico e Real.


Referencias bibliográficas

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