Histeria e anorexia
- mayarasouzapsi
- 4 de jun. de 2023
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Em “Um caso de cura pelo hipnotismo”, Freud utiliza a expressão Histérique d’occasion de Charcot, para falar sobre o caso de uma jovem mãe incapaz de amamentar seu bebê recém-nascido, que sentia dores e teve perda de apetite durante a fase de tentativa, melhorando quando a ama-de-leite entra para esta função a fim que se evitasse riscos para mãe e bebê. Na segunda gravidez mesmo na tentativa de amamentar, novamente os esforços parecem ser em vão e os sintomas ainda mais desagradáveis, como vomito e insônia. A incapacidade aumentava a cada tentativa. Freud a atende, indo em sua casa e utilizando do olhar e da sugestão para a prática da hipnose, isso traz uma reação de melhora momentânea, mas no dia seguinte volta os sintomas. Na segunda tentativa, também pela técnica da hipnose, Freud faz uma sugestão mais enérgica, de que ela deveria falar com aspereza com a sua família exigindo seu jantar. No terceiro filho, a historia se repete. (Freud, [1893] 1980)
Freud irá fazer uma diferenciação entre neurastenia e histeria, sendo na primeira, de que ”a ideia antitética, patologicamente intensificada, combina-se com a ideia volitiva num único ate de consciência; ela exerce uma subtração da ideia volitiva e causa a fraqueza da vontade”, e na segunda, “em consonância com a tendência à dissociação da consciência na histeria, a ideia antitética aflitiva, que parece estar inibida, é afastada da associação com intenção e continua a existir como ideia desconectada” inconsciente. Além disso, Freud aponta ser bastante característico da histeria que no ponto de se colocar em execução a intenção, “a ideia antitética inibida consegue atualizar-se através da inervação do corpo, com a mesma facilidade com que o faz, em circunstancias normais, uma ideia volitiva”, uma contra vontade (Freud, [1893] 1980).
É a partir desse texto, um caso de cura pelo hipnotismo, pouco antes de fundar a psicanalise, que Freud, traz suas primeiras contribuições importantes para a compreensão de casos de anorexia (Fuks e Campos, 2010).
Silvia Amigo, em seu livro, Clinica dos fracassos da fantasia, abordará um capitulo inteiro sobre os transtornos alimentares, fazendo uma reflexão sobre a anorexia veras, da qual se diferenciaria de uma anorexia pelas vias histéricas. Naquela, pode-se encontrar em qualquer estrutura, pois o que acontece é uma lesão no vinculo com o Outro (Amigo, 2008).
É importante entender que a alimentação vai muito além da nutrição de um corpo, também esta ligada às primeiras relações do sujeito com o Outro. Alimentar-se é um feito que só pode chegar ao bebê pela via do Outro (Amigo, 2008).
Mas aqui, retomaremos a histeria. Em 1889, Freud começa o tratamento de uma mulher de 40 anos, Emmy Von N.. Freud Relata ser um caso de histeria do qual ele utiliza da técnica de investigação sob hipnose de Breuer (Freud [1895], 1980).
Para Emmy Von N., a ideia de comer se referia a lembranças de sua infância de cenas repugnantes das refeições frias das quais era obrigada a comer junto com os irmãos doentes (Fuks e Campos, 2010).
Freud, na construção de sua teoria, está atento aos sintomas como uma possibilidade daquilo que escapa à memória, ao trauma.
Nessa frase: “qualquer teoria psicológica aceitável tem que oferecer uma explicação da <<memória>>” (Freud, 1895 – 1930) entendemos que ao desconsiderar a memória (as reminiscências), para o entendimento do aparelho psíquico, facilmente caímos em explicações de uma psicologia experimental. Um retorno aos tempos modernos do qual Freud se diferencia, dá um passo a Frente.
Freud também fará um paralelo entre melancolia e anorexia no “rascunho G”, “perda de apetite: em termos sexuais, perda de libido” e “a possibilidade de estabelecer uma forte ligação da anorexia com o real do sexo e com a beleza enquanto forma de velar a castração feminina” na “Carta 105”. (Fuks e Campos, 2010).
Assim, um dos recursos sintomáticos presentes na histeria, seria a anorexia, passível de se historicizar a partir das reminiscências. Um recurso para por em falta o Outro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMIGO, S. Clínica dos fracassos da fantasia. Tradução de André Luis de Oliveira Lopes. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.
FREUD, S. (1892). Publicações Pré-psicanalíticas e Esboços Inéditos. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_____, S. (1983). Estudos sobre a Histeria. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FUKS, B.B. CAMPOS, T. S. P. Anorexia: da urgência de uma nova prática clínica. Tempo Psicanalítico, Rio de Janeiro, v. 42, p,39-59, 2010.
